Conheci Olinda quando havia praia a começar do Varadouro,
passando pelos Milagres, Carmo, São Francisco (onde fica
o fortim), Farol e o início e fim do Bairro Novo. Isso em
meados dos anos 40, quando este último terminava onde hoje
é a Praça 12, chamada naquele tempo de circular do
bonde, porque era ali que o veiculo da Pernambuco Tramways (o bonde
Farol) retornava para o Recife. Após a praça, começava
a extensa vegetação formada por cajueiros que avançava
pela atual avenida Getulio Vargas e as ruas circunvizinhas.
Naquela época era comum, para quem morava no Recife, veranear
em Olinda. Alugavam-se casas para a temporada a preço barato,
accessível a uma empobrecida classe média, oriunda
da capital: a essa população flutuante os olindenses
recebiam mal no primeiro ano de veraneio, até mesmo com hostilidade,
por “não serem da terra”. Era problemático
para esses “estrangeiros” namorar uma jovem olindense,
salvo se a sua absorção fosse rápida pelos
nativos.
No segundo ano de veraneio, a situação se modificava
para melhor, salvo se no período de estágio probatório
tivesse ocorrido algum incidente (briga física) com um dos
da terra. O futebol de praia, e depois o voley-ball contribuíram
bastante para distender o clima hostil inicial e a aculturação
ocorria rapidamente.
Olinda possuía três cinemas: o do Carmo, o Duarte Coelho
e o Olinda Feitosa. O Clube Atlântico Olindense, plantado
na Praça do Carmo, no final dos anos 40, fazia as festas
da classe média e alta. Aos domingos, à noite, ia-se
à retreta naquela praça, quando alguns namoros surgiam
de olhares e encontros furtivos.
A Cidade Alta abrigava autênticos olindenses, preservada da
“invasão” dos anos 70, quando centenas de recifenses
(arquitetos, advogados, engenheiros, médicos, economistas,
artistas plásticos etc.) transferiram-se para o sítio
histórico, fixando residência e valorizando, a partir
de então, o preço dos imóveis. Disso decorreu
um expurgo pacífico e consentido dos verdadeiros moradores,
olindenses de nascimento, quase todos.
Nessa mudança houve um componente político-ideológico,
pois a esmagadora maioria dos neo-olindenses era de esquerda e,
conseqüentemente, de oposição ao regime militar
vigente. Havia um certo “clima” de Montparnasse parisiense
caboclo.
O antigo carnaval de Olinda sofreu essa influência. Aos tradicionais
clubes e blocos (Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefantes etc.),
aos compositores da terra (Cláudio Nigro, Wilson Wanderley
etc.), seriam acrescentados novos músicos, blocos e troças,
vindos de outras paragens.
Voltando à orla marítima, lembra-me dos primeiros
bares e restaurantes que ali se localizaram. No final dos anos 40,
na beira-mar do Farol, existiu o Farolito, de há muito desaparecido.
No começo do Bairro Novo, houve o Guajá, que alugava
quartos para encontros de casais. O Ferreirinha, ainda hoje de pé,
atrás do Fortim, também se especializava em tais serviços,
locando, inclusive, pequenos quartos por mês, o que era símbolo
de status.
Vieram, em outro momento, o Samburá (de Cícero), o
Itapoã, o Bar do Guaimum (de Diógenes), o Rainha do
Mar (em forma de navio) e o saudoso Zé Pequeno, todos assiduamente
freqüentados pela população boêmia, de
todas as idades, de Olinda e Recife.
Na década de 80, os bares foram removidos das areias da praia
para a margem esquerda da beira-mar, com a urbanização
realizada pela Prefeitura.
Atualmente, a orla vem passando por uma modernização,
com vários hotéis, bares e restaurante funcionando,
além das obras de urbanização e alargamento
da avenida ministro Marcos Freire.
Mas nunca deixará de ser o local ideal para comer uma agulha
frita, um caranguejo, tomar uma cerveja gelada e jogar conversa
fora, sentindo o marcante odor do mar de Olinda...
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